Digitale Ausgabe

Download
TEI-XML (Ansicht)
Text (Ansicht)
Text normalisiert (Ansicht)
Ansicht
Textgröße
Originalzeilenfall ein/aus
Zeichen original/normiert
Zitierempfehlung

Alexander von Humboldt: „[Carta a Aimé Bonpland]“, in: ders., Sämtliche Schriften digital, herausgegeben von Oliver Lubrich und Thomas Nehrlich, Universität Bern 2021. URL: <https://humboldt.unibe.ch/text/1855-xxx_Carta_a_Bonpland-1-neu> [abgerufen am 31.01.2023].

URL und Versionierung
Permalink:
https://humboldt.unibe.ch/text/1855-xxx_Carta_a_Bonpland-1-neu
Die Versionsgeschichte zu diesem Text finden Sie auf github.
Titel [Carta a Aimé Bonpland]
Jahr 1855
Ort Rio de Janeiro
Nachweis
in: [Pedro] de Angelis, „Amado Bonpland“, in: Correio mercantil 12:101 (13. April 1855), [o. S.].
Sprache Portugiesisch
Deutsche Übersetzung dieses Textes
Schriftart Antiqua
Identifikation
Textnummer Druckausgabe: VII.95
Dateiname: 1855-xxx_Carta_a_Bonpland-1-neu
Statistiken
Seitenanzahl: 4
Zeichenanzahl: 27022

Weitere Fassungen
[Carta a Aimé Bonpland] (Rio de Janeiro, 1855, Portugiesisch)
[Carta a Aimé Bonpland] (Mexico, 1855, Spanisch)
Primer extracto (Buenos Aires, 1855, Spanisch)
||

Amado Bonpland.

Amado Jacques Alexandre Goujaud, mais co-nhecido pelo nome de Bonpland (*) nasceu a 29de agosto de 1773 na Rochelle, onde seu pai exer-cia a profissão de medico. Destinado a substitui-lo,mandárão-no para Paris afim de ahi receber umainstrucção mais completa que a que selhe poderiadar em uma cidade de provincia. Estudou sob adirecção dos mais habeis professores da escola demedicina desta grande capital, e foi um dos disci-pulos mais distinctos de Dessaut e o amigo intimode Bichat, tão prematuramente roubado á admira-ção e applausos de seus contemporaneos. Um instincto secreto, uma vocação innata, o le-vavão nas suas horas de repouso para o jardim dorei, onde elle observava com curiosa intelligenciaos thesouros accumulados nesse vasto deposito deproducções naturaes de todos os climas. A’ vista de objectos tão diversos seu espiritoparou primeiro indeciso, não sabendo qual eramais digno de sua attenção. Admirava elle a or-dem que reinava, graças ao genio de Buffon e Dau-benton, nas collecções geologicas e zoologicas, eessa immensa variedade de organisação, de fórmae de cor que apresentavão de toda a parte as seriesincompletas mas numerosas dos seres animados einanimados da creação. Mas o que o captivou sobre-tudo foi a reunião de plantas que a mão habilde Jussieu tinha distribuido em familias, simplifi-cando e aperfeiçoando ao mesmo tempo o systemade Lynneu. Este estudo, tão conforme aos gostosde Bonpland, tornou-se então sua occupação prin-cipal, e se continuou a seguir os cursos da escolade medicina foi unicamente para não desobedecerás ordens de seu pai, como um acto de resignaçãoa uma vontade inexoravel. Um acontecimento inesperado veiu tira-lo dessaposição indecisa. O governo francez, no meio doshazares do espirito revolucionario que se haviaapoderado da França e dos exercitos estrangeirosque se preparavão a invadi-la, havia decretado man-dar uma expedição destinada a explorar as colo-nias hespanholas desde o isthmo de Panamá atéao Rio da Prata. O capitão Baudin, investido do commando des-sa expedição, levava a seu bordo dous naturalistasque devião executar a parte mais importante da suamissão. Um era o Sr. Michaux, que já visitára aPersia, e que voltava dos Estados-Unidos, de quedescrevêra, em uma obra estimada, as principaesproducções naturaes; o outro, o Sr. Bonpland, que,não obstante ser tão moço, fôra julgado o maisdigno de acompanhar o celebre viajante. O Sr. deHumboldt, que estava então em Paris, pediu eobteve licença para os acompanhar. Começou por esse tempo a guerra na Europa;a Inglaterra nella tomou parte com toda a suaforça maritima, e a expedição não se fez. Os Srs.Humboldt e Bonpland, unidos já pelo duplo laçoda amizade e da sciencia, virão-se livres de pro-curar algures outros meios de satisfazer aos desejosque tinhão de visitar alguma parte pouco conhe-cida ou ainda ignorada do globo. Aceitárão en-tão o offerecimento que lhes fez o consul da Sue-cia de embaracarema bordo de uma fragata quelovava ao dey de Argel os ricos presentes que Ihemandava o rei da sua nação. Resolvêrão visitar a immensa cadèa que se es-tende desde as arêas do deserto até o limite dasneves eternas que cobrem os mais altos cumes doAtlas, e juntar depois seus trabalhos áquelles dessagrande expedição que, sob as azas da victoria, ex-plorava os monumentos esquecidos do poder e dogenio dos Pharaós. O navio que os levava para Argel teve de tocarem Cadiz para reparar as avarias que soffrêra du-rante a viagem. Esse novo contratempo decidiu-osa ficar na Hespanha, que entretinha então fre-quentes relações com suas colonias. O isolamentoa que a politica desconfiada da metropole as con-demnava, ainda não havia permittido á scienciapenetrar nessas regiões mysteriosas, e as noticiasinexactas de alguns viajantes excitavão aindamais a curiosidade dos sabios. Desta vez as esperanças dos dous naturalistasnão forão illudidas. O Sr. Urquijo, ministro dis-tincto da côrte de Madrid, prestou-lhes a mais de-cidida protecção; não só deu-lhes passagem a bordoda corveta Pizarro, como tambem proporcionou-lhes cartas e recommendações para todas as au-toridades das possessões hespanholas no NovoMundo. Antes de partirem visitárão os estabelecimentosscientificos de Madrid, travárão relações com todosos homens mais notaveis quo por communháo deopiniões ou de estudos lhes inspiravão maioressympathias. Tiverão longas conferencias com Or-tega, escriptor infatigavel e director dos museusreaes; com Ruiz e Pavon, autores da Flora doPerú; com Né, que acompanhára Hænche na des-ditosa expedição de Malaspina; e especialmentecom Cavanilles, o Nestor dos botanicos hespanhóes,cujas obras sinda hoje se reputão justamente oque ha de mais importante escripto em Hespanhasobre a sua Flora. (**) Chegou alfim o momento desejado. Depois de uma feliz viagem puderão pizar essesolo do Novo-Mundo, que tanto vierão a illustrarcom seus trabalhos. Quem quizer acompanha-losem suas peregrinações, e admirar-lhes as descober-tas, basta-lhe consultar suas obras. Quem se atre-veria a retocar o grande quadro traçado por esteshabeis mestres? Quem poderia erguer-se alé ellespara julgar deseu merecimento? Todos os ramos dasciencia, nas suas mais vastas proporções, nos seusmais altos mysterios, forão successivamente objec-to da applicação desses infatigaveis viajentes que,entregues a seus proprios recursos, desempenhá-rão a difficil tarefa de examinar e de descrever todasas riquezas occultas até então ás investigações dossabios. Factos historicos, detalhes de estatistica,ricas collecções de geologia, de mineralogia, dezoologia e de botanica, tudo entrou no plano deseus vastos trabalhos, que antes se devem conside-rar como uma grande encyclopedia, do que com ouma simples descripção dos logaros que aquellesviajantes percorrèrão.
(*) Foi seu pai que, vendo-o sempre occupando na cul-tura das plantas do seu jardim, lhe deu este nome. De Ron-Plant fez-se depois Bonpland, que substituiu oseu nome de familia.(**) Icones et descriptiones plantarum, quæ autsponte in Hispania crescunt aut in hortis hospitan-tur. Madrid, 1791 a 1799. 6. V. in fol. Hortus regius Matritensis: a morte do autor inter-rempeu a publicação.
|| Bonpland foi que encarregou-se da parte bota-nica, na qual era mestre. Qualquer outro teria decerto recuado diante de semelhante tarefa, vendoante si uma natureza tão rica e tão variada. Amaior parte das plantas não se encontravão, aindamesmo nos mais completos catalogos. Não se tra-tava sómente de recolhê-las, cumpria tambemdescrevê-las e classifica-las, trabalho arido quereclamava a pratica e a sciencia de um observadorconsumado. Esta parte — Da viagem pelo interiorda America Meridional — é bastante consideravel.Humboldt e Bonpland, se voltar de Europa, occu-párão-se exclusivamente em coordenar o que ha-vião reunido. E só depois de alguns annos é que pu-derão começar a fazer conhecidos do publico ofructo de seus trabalhos. A publicação dessa obra monumental despertouum sentimiento geral de admiração não só nasclasses illustradas, porém ainda mesmo entre aspessoas mais estranhas ás materias de que ella seoccupava; porquanto ás investigaçõas scientificaselles juntavão a descripção dos usos e costumesque os povos primitivos desses paizes havião con-servado inalterados desde a conquista. II. Nessa ópoca a imperatriz Josephina prodigali-sava ouro para tornar Malmaison uma das resi-dencias mais esplendidas da França. Bonplandfoi encarredago da direcção dos trabalhos do jar-dim e do parque. Quem com effeito poderia me-lhor acompanha-lo em tão generosos esforços?As mais bellas plantas, as mais escolhidas flôres,as mais raras arvores, ornavão esses sitios encanta-dores, onde o genio infatigavel que tinha em suasmãos os destinos do mundo ia ás vezes saborearalguns momentos de repouso. Bonpland gozou muitas vezes da honra de en-treter Napoleão com a narração de suas viagens;e o prazer a que punha mais preço era iniciara im-peratriz nos estudos a que consagrára sua vida.Dotada pela natureza de gosto apurado o de prodi-giosa memoria, Joesphina aprendèra facilmentea distinguir todas as plantas reunidas nas suasestufas, e a designa-las, não peloa nomes vulgares,mas pelos que a sciencia lhes tem dado. Para pro-var a seu mestre quanto se achava adiantada, ellatinha por costume perguntar-lhe com uma graçasó propria della:—Sr. Bonpland, como passa a Bonplandia Germiniflora?—E fazia isto não por-que fosse ella a mais linda flôr de seus jardins, masporque essa flôr tinha o nome que Cavanille lhehavia dado em honra de Bonpland. Não era esta a unica prova de estima que lhedava a imperatriz. Bonpland occupava em suacôrte uma posição distincta. Era um dos admi-nistradores de Malmaison e Navarra, dous dosmais ricos dominios da França. Nas recepções enas festas magnificas que frequentemente tinhãologar nestas duas residencias, as flôres appareciãosempre, e encantavão a todos por sua belleza e va-riedade. Os que erão admittidos nessas reuniões,depois de terem contemplado as obras dos grandesartistas de todas as escolas e de todas as épocas, de-pois de terem admirado a riqueza das alfaias e obom gosto dos ornatos, extasiavão-se á vista detantas flôres, cujos perfumes filtravão n’alma asmais gratas sensações. Nestes dias felizes tudorespirava a seducção e a grandeza que essa mulherpredestinada derramava á sociedade mais esco-lhida da Europa, a quem ella franqueavas as por-tas de seu palacio. Ai della o céo em que fulgu-rava a sua estrella devia em breve cobrir-se denuvens. O homem a quem Josephina havia dedi-cado a sua vida quebrou violentamente os laçosque o prendião á mulher que fôra a companheirade suas glorias. Josephina expiou em um só diatodos os favores que a fortuna lhe havia concedi-do com mão larga, o desceu da sua alta posiçãocomo se voluntariamente a tivesse abdicado. Ou-viu sem enrugar a fronte a sentença que a preci-pitava do throno; e por um esforço de que só suaalma era capaz, soube conter as lagrimas paraoccultar sua dôr áquelle que lhe vinha annunciarsua desgraça. « Não é a perda da corôa que meafllige, disse ella nesse mesmo dia á Bonpland,mas é a perda do homem que mais amei na mi-nha vida, e que jámais deixarei de amar emquanto a tiver. » Longos annos se havião passadodepois desta triste scena, e ainda Bonpland repe-tia estas palavras com os olhos banhados de lagri-mas e a voz tremula de commoção. Após uma longa interrupção, Napoleão man-dou prevenir a imperatriz de que iria visita-la nodia seguinte. A idéa de ver ainda uma vez pertode si o homem que, apezar de sua ingratidão,occupava sempre o primeiro logar nas suas affei-ções reviveu-lhe todas as impressões. O poucotempo que medeiou entre a noticia e a chegada doimperador foi gasto em dar a esta entrevista o carac-ter de um memoravel acontecimento. Joesphinafez grandes preparativos para solemnisar a vindado imperador; ella occupou-se sobretudo em or-nar com flôres todos os seus aposentos. « Amanhã,disse ella a Bonpland, tudo deve respirar alegria eprazer em derredor de nós. Espero o imperador:semeai flôres em todos os cantos de minha casa:eu quizera poder fazê-las brotar por onde ellepizasse. » Nesse dia, nesse bello dia, ella es-queceu todos os seus pezares, e só viveu desua felicidade passada. Por uma delicadeza que éfacil comprehender, ella recebeu o imperador de-baixo do perystillo do seu palacio, e conferencioucom elle na presença de seus cortezãos. Ella nãoignorava a opposição que nelles oncontrára Napo-leão ao designio de visita-la; e o que realmentehavia afastado o imperador de Malmaison não eraindifferença, porém sim suspeitas de sua novaesposa. Napoleão não quiz deixar Malmaison sem exa-minar as ricas collecções de plantas que Bonplandreunira em suas magnificas estufas. Elogiou-lheas disposições, admirou suas novas cobertas, e fe-licitou-o pelos resultados que até então obtivera desuas experiencias de aclimatação Estimulado porestes augustos suffragios, Bonpland emprehendeue publicou a Descripção das plantas raras cultiva-das em Navarra e Malmaison, uma das obrasmais esplendidas que tem sahido dos prélos deParis, ornada de numerosas estampas, obra dosmelhores artistas de França. A quéda de Napoleão despedaçou o coração deJosephina. Não havia nada de egoismo nesse sen-timento, porquanto sua posição pessoal não sóf-fria a influencia desse acontecimento. No meiodas revoluções que se operárão em França noshomens, nas cousas, nas opiniões e no governo,os principaes instrumentos desta catastrophe secomprazião em rodear de attenções o de solicitu-des aquella que havia sido em algum tempo a des-ditosa companheira da victima delles. O impera-dor da Russia, o rei da Prussia, os mais altos func-cionarios da diplomacia o das armas, vierão ren-der-lhe homenagens em seu silencioso retiro deMalmaison. Uma guarda de honra vellava conti-nuamente sobre sua pessoa e sobre seus bens.Ninguem ousaria profana-los; porém o interessetestemunhado pelos invasores da França era umaprova eloquente do seu respeito por Josephina.A imperatriz, absorvida em sua dôr, podia sub-trahir-se a estas visitas officiaes. « O meu lo-gar não é aqui, dizia ella um dia a Bonpland,que se tinha tornado o confidente dos seus pe-zares. O imperador está só e abandonado. Enquizera estar a seu lado para ajuda-lo a supportaro seu infortunio. Mas por ventura posso faze-lo? . . . Nunca soffri tanto por ter perdido o di-reito de preencher este dever. Pude resignar-mea viver longe delle emquanto era feliz; hoje, queé desgraçado, peza-me, peza-me muito ver-metão separada. » Approximava-se a hora em que esta separaçãodevia ser eterna. A imperatriz foi atacada de umalaryngites que tomou em pouco tempo o carac-ter de uma affecção cancerosa. Todos os soccorrosda arte forão baldados. Ella expirou no dia 29de maio de 1814, entre seus dous filhos, o prin-cipe Eugenio e a rainha Hontencia. O imperadorAlexandre, que esteve presente a seus ultimosmomentos, confundiu suas lagrimas com as delles. Bonpland foi testemunha desta scena de dóque cavou em sua alma um sulco profundo. Cho-rou, não a sua fortuna desfeita, mas a mortedesta mulher incomparavel, que animava os seustrabalhos com a sua protecção e com seus suffra-gios. III. Malmaison perdeu promptamente todo o seubrilho, sua decadencia foi tão rapida, como lentatinha sido sua creação. O Sr. Bonpland teve o desgosto de ver morrer ofructo de seus cuidados, o de tão custosos e ina-preciaveis sacrificios. A residencia em França nãotinha mais encantos para elle; nada podia enchero vacuo que deixárão nelle a morte da imperatrizo a destruição de sua real morada. Estas recordações peniveis fizerão-lhe sentir anecessidade de procurar algum allivo na activi-dade e no trabalho. Seu espirito voltou-se áquel-les tempos longinquos em que elle percorria asricas provincias da Nova-Hespanha em compa-nhia do seu illustre amigo o Sr. de Humboldt.Pareceu-lhe que restava ainda muito a fazer paracumprir completamente o programma que elle se || tinha traçado, sobretudo na parte botanica, quepodia receber grandes melhoramentos. A’s plantas equinoxiaes que crescem na regioãodas palmeiras e nos cumes nevados dos Andesconvinha accrescentar as da zona temperada, tãoimperfeitamente descripta pelo padre Feuillée, etão rapidamente observadas por Comerson; o Sr.Rivadavia, que se achava então em Paris, levou-oa pôr em execução este projecto. O Sr. Bonplandembarcou-se em um navio prompto a dar a velapara o Rio da Prata, e chegou a Buenos-Ayres pe-los fins de 1816. A situação do paiz não era de modo algum pro-picia á satisfação deste empenho. A independen-cia das provincias hespanholas, proclamada comtanto ardor pelo congresso de Tucuman, tinhaainda muitos obstaculos a vencer e poderososinimigos a combater. Artigas mantinha ainda a anarchia no paiz quetem hoje o nome de Republica Oriental do Uru-guay, e esta agitação se estendia ás provincias deEntre-Rios e Corrientes. O dictador Francia reinava despoticamente noParaguay, completamente fechado ao commercioestrangeiro. San-Martin organisava o exercito quedevia levar a liberdade ao Chile; a espada de Boli-var não tinha ainda assegurado os destinos da Co-lumbia; e o alto e o baixo Perú estavão sob o do-minio da Hespanha, cujos exercitos occupavão ospontos principaes destas colonias. Tudo era revo-lução e perigo na vasta extensão do continenteamericano. O Sr. Bonpland, contrariado em seus projectos,aceitou o offerecimento que lhe fez o governo deoccupar uma cadeira de medicina na Universida-de de Buenos-Ayres; mas o amor por seus es-tudos predilectos fez-lhe abandonar a cadeira, eelle foi fundar um estabelecimento agricola emuma das antigas missões do Uruguay, onde achoua tranquillidade no meio da solidão do deserto. Os começos forão-lhe muito peniveis; mas tinhajá chegado a vencer as difficuldades que acompa-nhão sempre as emprezas desta natureza, quandoo espirito suspeitoso do dictador Francia assus-tou-se com os progressos de seu estabelecimento.Apezar de se achar este fundado em uma provincialimitrophe, e separada do Paraguay por um gran-de rio, o dictador resolveu destrui-lo. Um dia em que o Sr. Bonpland repousava, foiaccordado pelos gritos de seus trabalhadores, queuma força enorme de Paraguayos viera sorprender.Precipitou-se para a porta, e, a vista daquella gentedesconhecida, tomou uma arma para oppor-se aoque elle julgava, e que era realmente, uma aggres-são. No primeiro encontro recebeu na cabeça umacutilada, que o poz na impossibilidade de defen-der-se. Levárão-no amarrado como um malfeitor para asembarcações que havião servido ás tropas do dicta-dor para a traversia do Paraná, e foi conduzido comuma forte escolta a Ytapúa. Deste ponto transportá-rão-no para um outro mais retirado, prohibindo-se lhe afastar-se a mais de uma legua de sua habita-ção. Seu estabelecimento foi completamente ar-ruinado; nada ficou de tudo que elle havia feito. Privado de sua liberdade, ferido em seus inte-resses, condemnado ao silencio e ao isolamento,o. Sr. Bonpland achou no seu stoicismo consola-ções e mesmo motivos para zombar dos caprichosda fortuna, comparando os dias que elle passárana côrte da imperatriz Josephina com sua posiçãoactual sob a dependencia de um obscuro tyrannodo Paraguay. Resignado á sua sorte, começou aobservar as producções naturaes do canto de terraque lhe era dado habitar. Deixaremos que elle proprio conte as occupa-ções que o ajudárão a passar, sem muitos vexa-mes, os nove annos de seu captiveiro. « Estabeleci tambem uma fabrica de aguardentee de licores, uma officina decarpinteiro e uma ser-raria que não só me dava para a necessidade demeu estabelecimento, mas deixava-me ainda al-guns lucros nos trabalhos que se me encommen-davão. « Adquiri assim uma posição remediada. « A 12 de maio de 1829 o delegado de Santiagome intimou ordem do director supremo de sahirdo Paraguay, etc. » IV. A liberdade do Sr. Bonpland excitou na Europaum enthusiasmo universal. As circumstancias deseu captiveiro, o logar de seu exilio, a pessoa deseu agressor, tudo contribuia para dar á sua reap-parição o caracter de uma visão phantastica. Tervivido sob a dependencia de Francia, ter passadotantos annos em um paiz impenetravel com oParaguay, poder fallar de seus productos, de seushabitantes, de seus custumes, de seu governo, erãotitulos proprios de despertar a curiosidade pu-blica. Luiz Felippe, que acabava de subir ao throno,dou a seus agentes e ao chefe da estação navalfranceza no Rio da Prata ordem de fornecer ao Sr.Bonpland tudo que fosse necessario para sua vol-ta á patria; e o Sr. de Humboldt foi annunciar aoInstituto de França a proxima chegada de seuamigo e companheiro como um acontecimentocom o qual se devião regozijar todos os amigos dasciencia. Estes lisongeiros testemunhos de estima, estahomenagem espontanea da porção mais instruidae mais distincta da Europa, e o desejo tão natu-ral a todo o homem de voltar ao seio de sua fa-milia para esquecer ali infortunios passados, nãopuederão decidir o Sr. Bonpland a trocar o habi-to de sua vida tranquilla pelos deveres e agitaçõesda vida que o esperava. Elle teria seguramenteencontrado em Paris recordações, distincções, pra-zeres ; os admiradores e as lisonjas lhe não teriãofaltado ; mas a preço de quantos trabalhos haviade comprar estes prazeres? Um dia, em que elle nos fallava com expansãodo seu designio de nunca mais afastar-se desteslogares, dizia-nos: « Acostumado a viver ásombra das arvores seculares, a ouvir o canto dospassarinhos, que lhe suspendem os ninhos nosramos, a ver correr a meus pés as aguas puras deum regato, para que substituir todos estes benspelo ruido de um dos bairros mais aristocraticosde Paris? Encerrado em um gabiente seria força-do a trabalhar por conta de algum livreiro que seencarregaria de publicar minhas obras, sem teroutra consolação senão ver nascer de tempos emtempos uma rosa na janella do meu quarto. Euperderia aquillo que mais amo—a companhia des-tas queridas plantas no meio das quaes tenho vi-vido. » Estas razões, muito poderosas no espirito de umnaturalista, teem prolongado, por uma resolução vo-luntaria, um exilio que começára por um acto deviolencia. O Sr. Bonpland vive hoje em S. Borja,ponto o mais povado das antigas missões do Uru-guay, no logar onde elle se estabelecêra antes daperseguição de Francia, e nada parece devè-lo ar-rancar ao genero de vida que adoptou, e com oqual se mostra satisfeito. Sua robusta constitui-ção fá-lo supportar com voragem o peso dos an-nos, e sua viva imaginação alimenta-lhe a espe-rança de poder levar ao cabo grandes projectos queelle medita em seu espirito sempre activo e sem-pre occupado. « Daqui a um anno ou dous, escrevia elle re-centemente a um amigo, poder-me-hei occuparde uma chacara e fazer uma grande plantação paraembelleza-la. Quando minha casa estiver prompta,hei de convidar-vos para passarmos juntos os pou-cos dias que nos restão. » Estas illusões são dignas de inveja. O que aindao é mais é a amizade que lhe conserva o Sr. deHumboldt, uma das maiores illustrações deste se-culo, que tem legado á historia tantos nomescelebres. Ha um anno o illustre sabio, do meio dos es-plendores da côrte de Berlim, escrevia a seu an-tigo companheiro de estudos esta carta cheia deterna e affectuosa estima: « Meu caro e terno amigo!—Ainda que eu tenhabem pouca esperança de que estas linhas e o livroque as acompanha (a bella traducçãn franceza danova edição de meus Quadros da Natureza) che-guem ás tuas mãos, procuro entretanto, já bemperto do meu octogesimo-quarto anniversario,dar-te um pequeno signal de vida, o que quer dizerde amizade, de affectuosa dedicação, de vivo reco-nhecimento. « Sei com grande alegria que tu te conservasn’uma feliz e intelligente actividade. Um Ame-ricano que me é desconhecido, o Sr. John Torrey,professor de botanica em New-York, teve a delica-deza de mandar-me um thesouro,— teu retrato emphotographia. Reconheci nelle teus nobres tra-ços, trabalhados sem duvida pela idade, mas taescomo t’os vi em Esmeralda, em Tchuilotepec, eem Malmaison! Deixaste (como por toda par-te) agradaveis saudades em Berlim; mostrei teu || retrato a muitas pessoas que se interessão peloteu nome e por teus interessantes trabalhos. « Minha saude mantem-se pela propria assidui-dade ao trabalho. O ultimo (4° volume) do Cos-mos apparecerá neste inverno. Teus importantesmanuscriptos botanicos, escriptos durante nossaviagem, achão-se depositados com muito cuidado,e muito completos, no Museu de Historia Naturaldo Jardim das Plantas, como tua propriedade, daqual pódes dispor. Peço-te de joelhos, caro Bon-pland, que os deixes em Paris, no Jardim das Plan-tas, onde teu nome é venerado. E’ um monu-mento de tua immensa actividade. « Ha de sem duvida ter-te affligido muito a mor-te inesperada de Adriano Jussieu ! « O rei da Prussia nomeou-te, ha cinco annos,cavalheiro da sua ordem real da Aguia Vermelha. « Publicou-se isto nos jornaes, mas a noticia of-cial e a decoração não te terão chegado ás mãos. « Conheço teu cathecismo philosophico, masacreditámos que em tuas relações com o Brasil(seas tens) isto te podia ser util. « Ainda não voltei a Paris depois de janeiro de1848. As intimas relações que tive com a duquezade Orleans impedem-me de apparecer nas Tulhe-rias, assim como tambem o ardor que tu me conhe-ces pelas instituições livres. « Nunca fui daquelles que acreditárão que tedeixarias tentar, meu caro e excellente amigo, peloaspecto da Europa actual, a deixar um magnificoclima, a vegetação dos tropicos e a solidão feliz nomeio das affecções domesticas. « Talvez que estas linhas, que eu confio a umjoven medico polaco (de um nome um pouco bar-baro, de Chrzemski), que vai a Buenos-Ayres, tepossão chegar ás mãos! Queria ter letras tuasantes de minha morte proxima. « Todo teu de corração e alma, com o reconhe-cimento de um terno amigo e fiel companheiro detrabalhos Alexandre Humboldt. « Berlim, 1° de setembro de 1853.—O pobreArago, quasi cego, acha-se no mais triste estadode saude. « Sei que continúas com louvavel ardor a aug-mentar tuas immensas collecções. » Nem a idade, nem o isolamento, puderão esfriarno Sr. Bonpland o amor pelo estudo e pela con-templação da natureza. Quando elle se achava noParaguay, privado da liberdade, sua unica dis-tracção era herborisar, ajuntar crystalisações, pe-trificações e mineraes dos campos que o cercavão.Estas collecções, que encheu perto de cinconetacaixas, forão embarcadas a bordo de um navio deguerra e mandadas aos Museus de Paris como um certificado de vida do illustre naturalista. Ha pouco tempo o Sr. Mailleffer, encarregadodos negocios de França em Montevidéo, recebeude seu governo ordem de communicar ao Sr. Bon-pland uma lista de algumas plantas do Paraguayque a commissão de agricultura julgava propriasa serem introduzidas e aclimatadas na Algeria.O Sr. Bonpland, que se achava accidentalmentenaquella cidade, deu conta desta missão da maneiramais louvavel. Não se contentou com augmentaro numero das plantas, a seus nomes scientificosaccrescentou o que ellas teem na lingua guarany,e deu as instrucções necessarias para sua conser-vação e cultura. Durante sua curta estade em Montevidéo, aquel-le que escreve estas linhas teve a felicidade detornar a ver e abraçar uma vez ainda seu velhoamigo o Sr. Bonpland depois de uma separaçãode mais de vinte annos; não diremos que estesannos tenhão passado impunemente sobre sua ca-beça; mas foi-nos de grande consolação ver queelles deixavão poucos signaes de sua passagem.São sempre os mesmos traços: o olhar fino e intel-ligente prova que o Sr. Bonpland conserva todaa vivacidade de seu espirito, com a bondade e in-genuidade de seu coração. De Angelis.